terça-feira, 31 de março de 2015

Capº V - Conhecer a BA2

A Base da Ota era tão ou mais isolada do que a de Tancos, por isso pouco mais havia onde passar o tempo noturno do que dar uma olhadela nalgum programa sem interesse, no único canal de TV que existia, ou, em alternativa, uma ida ao cinema da Base, só à quinta-feira. Além dos habituais Edifícios e Serviços comuns a qualquer outra Base, como a Secretaria da E.P.D.P., da Polícia Aérea, Cancela da Polícia e a Porta de Armas, havia os Postos de Controlo e Vigilância da Linha da Frente; a Torre de Controlo e do Alto do Bairro de Sargentos. 
A P.A. também fazia o serviço de segurança ao Cinema. 
O Comandante era o Coronel Piloto-Aviador Diogo Neto, e o Segundo Comandante, o Tenente-Coronel Piloto-Aviador, Brochado Miranda. Na Esquadrilha de Polícia e Defesa Próxima, tinhamos o Capitão Carmo Mendes e o Alferes Pereira Alves, como figuras de maior patente. Sargentos não tínhamos, mas havia uma catrefada de cabos. Uns simples, outros aprovados, alguns outros milicianos... Vi que o cabo-miliciano que secretariava a Esquadrilha da P.A., era o cartaxeiro António Leal, que era de 63. Eu, que era de 64, somente depois da saída daquele, entrei em sua substituição naquele Departamento da Polícia Aérea. 
A BA2 distinguia-se das demais, por ter a Recruta e Formação dos Soldados-Alunos que, mais tarde, viriam a ser os Cabos-Especialistas. As instalações da P.A. eram no 1º andar do edifício em cujo rés-do-chão se situava a Cantina dos Sargentos e a malfadada barbearia, para onde eram mandados alguns "prevaricadores" a fim de levarem um banho de carola à máquina zero.







Nos primeiros dia na Base, fui sabendo de muitas coisas que dominavam e caraterizavam a vida na unidade e redondezas. Entre outras coisas, fiquei a saber, que certos soldados e cabos-especialistas, quando interpelados pelas suas amigas ou namoradas, acerca da categoria e especialidade daqueles tipos de boina azul, que há pouco tempo tinham sido colocados na Base, lhes terão dito que esses militares a que elas se referiam, eram os uns fulanos que estavam ali para lhes fazer as camas e limpar as camaratas. Ao que parece, os rapazes da Polícia Aérea não terão gostado muito dessas considerações e, como retaliação, nada melhor do que fazer a vida negra aos fanfarrões dos meninos especialistas, namorados das donzelas da região.
Estava montado um esquema tal que, segundo acreditaram, daria os seus frutos, a médio prazo. Depois, numa fase mais adiantada, já as raparigas da Ota, Alenquer e Vila Franca de Xira, saberiam quem eram, ao certo, os rapazes da boina azul.
Especialista que vagueasse dentro da Base, armado em turista, com bivaque no cinto e com a camisa desabotoada era, de imediato, confrontado com a falta disciplinar cometida e, por isso, teria que sofrer as penalizações previstas no código militar. Também no posto de controlo de saída da Base, os especialistas era alvo de uma minuciosa revista por banda dos efetivos da P.A. ali em serviço, que não lhes facilitavam a vida. Quem não se apresentasse fardado a rigor e com sapatos que não fossem da ordem, era certo que não sairia da Base. Nem para ir a Alenquer, quanto mais ir de fim de semana.
É claro que, este extremar de posições por banda da P.A., gerou alguma controvérsia, só que o sistema ora instalado, era o que estava correto e não o anterior, em que a condescendência dos elementos da Polícia Aérea face aos especialistas era quase total.
 Agora era a altura ideal para que as raparigas daquelas povoações ficassem a saber que, afinal, os boinas azuis eram os tutores e orientadores da conduta dos seus amigos especialistas, na Base e fora dela, ao contrário do que estes tentaram impingir às meninas. Neste período, algo negro para os aviadores (que era como eles se apresentavam às miúdas), até nas rondas que fazíamos, não lhes dávamos descanso. Se eles queriam “guerra”, aí a tinham!
Uma das situações que nos dava mais gozo, era abordar um qualquer especialista numa qualquer rua de Alenquer ou Vila Franca, atrelado à sua namorada e chamá-lo à atenção para qualquer falha. Chegámos, inclusive, a dar reprimendas a quem desses militares caminhasse ao lado ou de braço dado com a sua consorte, numa berma de estrada ou num passeio, não desse a parte interior à sua parceira. Essa conduta fazia parte das regras e dos bons costumes a observar pelos militares. É evidente que eles, ao serem apelidados de grosseirões, sem porte nem maneiras para com a sua dama, ficavam fulos, mas só no seu íntimo, porque, por fora, desfaziam-se em mil desculpas.
Esta, também era uma maneira de fazer perceber às raparigas, que éramos nós quem  fazia as camas aos seus namorados, mas era no campo disciplinar.

Especialista conotado com aquela afronta, que fosse apanhado em qualquer estrada a pedir boleia, era participação certa ao Comando da Base. No entanto, a nossa atitude para com a malta da corda - que também os havia - ou para com os militares dos outros ramos, já não era assim tão severa. Antes pelo contrário. Houve até um episódio, descrito num outro capítulo mais adiate, que demonstra a nossa solidariedade e ajuda para com aqueles que, sendo mais humildes, bem mais necessitavam. Eram de outra arma, que não a Força Aérea?  E que importava isso, se nós, Polícia Aérea, éramos todos bastante solidários?

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