1 - no 1º dia
A
instrução terminou em julho e, em princípios de setembro, fui colocado na Base
Aérea nº2, na Ota. Eu tinha escolhido três bases, pela seguinte ordem de
preferência: 1.ª, BA2 na Ota; 2.ª, BA9 em Luanda; 3.ª, BA10, em Lourenço
Marques. Disseram-me que fui colocado na Ota (que até fora a minha primeira
opção), por ter tido uma boa classificação no curso. Fosse por que fosse, o
certo é que acabei por ficar a cerca de vinte quilómetros de casa. Era bom por
um lado, mas péssimo por outro. Bem, porque gastava pouco tempo e dinheiro nas
viagens; mau, porque com o vício de ir a casa, sempre gastava mais do que se estivesse longe. Era
um círculo vicioso.
Tinha
colegas de Lisboa, das Caldas, da Abrigada e de Cabanas de Chão, que iam a casa
quase todos os dias e, pelo que diziam, para trazerem umas coroas no bolso, não tinham que dar o corpo ao manifesto, como eu, porque trabalho ao fim de semana, era coisa que não faltava.
Apresentando
a Base Aérea nº2, direi que se situava a dois quilómetros da aldeia da Ota, a
oito quilómetros de Alenquer e a uns quinze de Vila Franca de Xira. Tinha uma
razoável gama de aeronaves, tais como os aviões a jato T-33, aviões de combate,
coqueluche da Base; Junkers-Ju52, para transporte de militares e lançamento de
paraquedistas; Os Skymaster para instrução de pilotos; Chipmunk, utilizado na
instrução básica de pilotagem e alguns helicópteros tipo Allouette III.
Na
semana em que eu cheguei à Ota, fui ao cinema da Base ver o filme “Os amores de Lucrécia Borgia”.
Sentei-me, descansadinho e os documentários começaram a passar na tela. Ainda
mal as luzes se tinha apagado e o projetor ligado, quando ouvi uma discussão e,
ato contínuo, um som e um grito que, cá para mim, não auguravam nada de bom.
Pediram
ao projecionista para ligar as luzes da sala e deu para ver o que se
passava em redor. Vi um soldado do Serviço Geral, por sinal um grande
calmeirão, com a cabeça aberta em duas, ser levado em braços, para fora, para a
rua e um cabo da P.A. de cassetete, ainda fumegante,
na mão, à procura de mais uns dois candidatos que, entretanto, se puseram ao
fresco, não fosse o Diabo tecê-las. É que aqueles cassetetes não são de
borracha, não! São de madeira e da rija. Tenho um desses exemplares em casa e
imagino que uma bordoada daquelas assente bem a preceito, não deve deixar que a
vítima fique com vontade de repetir a dose.
Eu,
realmente, só me apercebi da parte final do tumulto, mas segundo me relatou um
meu colega da Polícia Aérea, que estava ali de serviço e foi um dos
intervenientes no caso, o que se passou foi o seguinte: o soldado agredido,
cozinheiro do refeitório do Serviço Geral, mal se apagaram as luzes da sala,
tomou a infeliz decisão de puxar de um cigarro e acendê-lo. Um dos soldados da
P.A em serviço no Cinema acercou-se do fumador e mandou-o apagar o cigarro; como
resposta, levou com um impropério de todo o tamanho dirigido à senhora sua mãe
que, a esta hora da noite, estaria, provavelmente, bem descansadinha em casa a
fazer renda e a ouvir o programa do Sr. Matos Maia, “Quando o Telefone Toca”, no Rádio Clube Português, e não devia ter
sido para ali chamada. O soldado, da primeira vez, ainda desculpou o cozinheiro
açoriano, mas como este tivesse repetido a ofensa, o P.A. já não esteve pelos
ajustes e comunicou ao cabo o que se passara. O cabo Libânio, homem de Manique
do Intendente, possante e bruto que nem uma carroça velha, tirou o cassetete da
mão do seu subordinado, chegou-se ao pé do açoriano e nem lhe perguntou por que
lado queria e quantas queria: marcou-lhe uma pancada ao centro da mona, que deixou o fulano em estado melindroso.
O
ferido, depois de assistido na enfermaria da Base, foi parar ao Hospital
Militar da Estrela, onde ficou uns tempos, de
molho. Porém, como lhe tivessem dado alta prematuramente, este regressou à
cozinha da Base, onde a chaga mal sarada, na sua cabeça exposta a fumos,
regrediu no seu estado clínico e o obrigou a voltar para o Hospital da Estrela
com uma valente infeção. Voltou à Base e ao seu posto de cozinheiro algum tempo
mais tarde.
Como dia de apresentação, já não estava mal de todo.
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