terça-feira, 31 de março de 2015

Capº V - Conhecer a BA2

A Base da Ota era tão ou mais isolada do que a de Tancos, por isso pouco mais havia onde passar o tempo noturno do que dar uma olhadela nalgum programa sem interesse, no único canal de TV que existia, ou, em alternativa, uma ida ao cinema da Base, só à quinta-feira. Além dos habituais Edifícios e Serviços comuns a qualquer outra Base, como a Secretaria da E.P.D.P., da Polícia Aérea, Cancela da Polícia e a Porta de Armas, havia os Postos de Controlo e Vigilância da Linha da Frente; a Torre de Controlo e do Alto do Bairro de Sargentos. 
A P.A. também fazia o serviço de segurança ao Cinema. 
O Comandante era o Coronel Piloto-Aviador Diogo Neto, e o Segundo Comandante, o Tenente-Coronel Piloto-Aviador, Brochado Miranda. Na Esquadrilha de Polícia e Defesa Próxima, tinhamos o Capitão Carmo Mendes e o Alferes Pereira Alves, como figuras de maior patente. Sargentos não tínhamos, mas havia uma catrefada de cabos. Uns simples, outros aprovados, alguns outros milicianos... Vi que o cabo-miliciano que secretariava a Esquadrilha da P.A., era o cartaxeiro António Leal, que era de 63. Eu, que era de 64, somente depois da saída daquele, entrei em sua substituição naquele Departamento da Polícia Aérea. 
A BA2 distinguia-se das demais, por ter a Recruta e Formação dos Soldados-Alunos que, mais tarde, viriam a ser os Cabos-Especialistas. As instalações da P.A. eram no 1º andar do edifício em cujo rés-do-chão se situava a Cantina dos Sargentos e a malfadada barbearia, para onde eram mandados alguns "prevaricadores" a fim de levarem um banho de carola à máquina zero.







Nos primeiros dia na Base, fui sabendo de muitas coisas que dominavam e caraterizavam a vida na unidade e redondezas. Entre outras coisas, fiquei a saber, que certos soldados e cabos-especialistas, quando interpelados pelas suas amigas ou namoradas, acerca da categoria e especialidade daqueles tipos de boina azul, que há pouco tempo tinham sido colocados na Base, lhes terão dito que esses militares a que elas se referiam, eram os uns fulanos que estavam ali para lhes fazer as camas e limpar as camaratas. Ao que parece, os rapazes da Polícia Aérea não terão gostado muito dessas considerações e, como retaliação, nada melhor do que fazer a vida negra aos fanfarrões dos meninos especialistas, namorados das donzelas da região.
Estava montado um esquema tal que, segundo acreditaram, daria os seus frutos, a médio prazo. Depois, numa fase mais adiantada, já as raparigas da Ota, Alenquer e Vila Franca de Xira, saberiam quem eram, ao certo, os rapazes da boina azul.
Especialista que vagueasse dentro da Base, armado em turista, com bivaque no cinto e com a camisa desabotoada era, de imediato, confrontado com a falta disciplinar cometida e, por isso, teria que sofrer as penalizações previstas no código militar. Também no posto de controlo de saída da Base, os especialistas era alvo de uma minuciosa revista por banda dos efetivos da P.A. ali em serviço, que não lhes facilitavam a vida. Quem não se apresentasse fardado a rigor e com sapatos que não fossem da ordem, era certo que não sairia da Base. Nem para ir a Alenquer, quanto mais ir de fim de semana.
É claro que, este extremar de posições por banda da P.A., gerou alguma controvérsia, só que o sistema ora instalado, era o que estava correto e não o anterior, em que a condescendência dos elementos da Polícia Aérea face aos especialistas era quase total.
 Agora era a altura ideal para que as raparigas daquelas povoações ficassem a saber que, afinal, os boinas azuis eram os tutores e orientadores da conduta dos seus amigos especialistas, na Base e fora dela, ao contrário do que estes tentaram impingir às meninas. Neste período, algo negro para os aviadores (que era como eles se apresentavam às miúdas), até nas rondas que fazíamos, não lhes dávamos descanso. Se eles queriam “guerra”, aí a tinham!
Uma das situações que nos dava mais gozo, era abordar um qualquer especialista numa qualquer rua de Alenquer ou Vila Franca, atrelado à sua namorada e chamá-lo à atenção para qualquer falha. Chegámos, inclusive, a dar reprimendas a quem desses militares caminhasse ao lado ou de braço dado com a sua consorte, numa berma de estrada ou num passeio, não desse a parte interior à sua parceira. Essa conduta fazia parte das regras e dos bons costumes a observar pelos militares. É evidente que eles, ao serem apelidados de grosseirões, sem porte nem maneiras para com a sua dama, ficavam fulos, mas só no seu íntimo, porque, por fora, desfaziam-se em mil desculpas.
Esta, também era uma maneira de fazer perceber às raparigas, que éramos nós quem  fazia as camas aos seus namorados, mas era no campo disciplinar.

Especialista conotado com aquela afronta, que fosse apanhado em qualquer estrada a pedir boleia, era participação certa ao Comando da Base. No entanto, a nossa atitude para com a malta da corda - que também os havia - ou para com os militares dos outros ramos, já não era assim tão severa. Antes pelo contrário. Houve até um episódio, descrito num outro capítulo mais adiate, que demonstra a nossa solidariedade e ajuda para com aqueles que, sendo mais humildes, bem mais necessitavam. Eram de outra arma, que não a Força Aérea?  E que importava isso, se nós, Polícia Aérea, éramos todos bastante solidários?

segunda-feira, 30 de março de 2015

Cap. IV - Entrada na BA2.

 - Na Base Aérea Nº 2, na Ota -


1 - no 1º dia
A instrução terminou em julho e, em princípios de setembro, fui colocado na Base Aérea nº2, na Ota. Eu tinha escolhido três bases, pela seguinte ordem de preferência: 1.ª, BA2 na Ota; 2.ª, BA9 em Luanda; 3.ª, BA10, em Lourenço Marques. Disseram-me que fui colocado na Ota (que até fora a minha primeira opção), por ter tido uma boa classificação no curso. Fosse por que fosse, o certo é que acabei por ficar a cerca de vinte quilómetros de casa. Era bom por um lado, mas péssimo por outro. Bem, porque gastava pouco tempo e dinheiro nas viagens; mau, porque com o vício de ir a casa, sempre gastava mais do que se estivesse longe. Era um círculo vicioso.
Tinha colegas de Lisboa, das Caldas, da Abrigada e de Cabanas de Chão, que iam a casa quase todos os dias e, pelo que diziam, para trazerem umas coroas no bolso, não tinham que dar o corpo ao manifesto, como eu, porque trabalho ao fim de semana, era coisa que não faltava.
Apresentando a Base Aérea nº2, direi que se situava a dois quilómetros da aldeia da Ota, a oito quilómetros de Alenquer e a uns quinze de Vila Franca de Xira. Tinha uma razoável gama de aeronaves, tais como os aviões a jato T-33, aviões de combate, coqueluche da Base; Junkers-Ju52, para transporte de militares e lançamento de paraquedistas; Os Skymaster para instrução de pilotos; Chipmunk, utilizado na instrução básica de pilotagem e alguns helicópteros tipo Allouette III.
Na semana em que eu cheguei à Ota, fui ao cinema da Base ver o filme “Os amores de Lucrécia Borgia”. Sentei-me, descansadinho e os documentários começaram a passar na tela. Ainda mal as luzes se tinha apagado e o projetor ligado, quando ouvi uma discussão e, ato contínuo, um som e um grito que, cá para mim, não auguravam nada de bom.
Pediram ao projecionista para ligar as luzes da sala e deu para ver o que se passava em redor. Vi um soldado do Serviço Geral, por sinal um grande calmeirão, com a cabeça aberta em duas, ser levado em braços, para fora, para a rua e um cabo da P.A. de cassetete, ainda fumegante, na mão, à procura de mais uns dois candidatos que, entretanto, se puseram ao fresco, não fosse o Diabo tecê-las. É que aqueles cassetetes não são de borracha, não! São de madeira e da rija. Tenho um desses exemplares em casa e imagino que uma bordoada daquelas assente bem a preceito, não deve deixar que a vítima fique com vontade de repetir a dose.
Eu, realmente, só me apercebi da parte final do tumulto, mas segundo me relatou um meu colega da Polícia Aérea, que estava ali de serviço e foi um dos intervenientes no caso, o que se passou foi o seguinte: o soldado agredido, cozinheiro do refeitório do Serviço Geral, mal se apagaram as luzes da sala, tomou a infeliz decisão de puxar de um cigarro e acendê-lo. Um dos soldados da P.A em serviço no Cinema acercou-se do fumador e mandou-o apagar o cigarro; como resposta, levou com um impropério de todo o tamanho dirigido à senhora sua mãe que, a esta hora da noite, estaria, provavelmente, bem descansadinha em casa a fazer renda e a ouvir o programa do Sr. Matos Maia, “Quando o Telefone Toca”, no Rádio Clube Português, e não devia ter sido para ali chamada. O soldado, da primeira vez, ainda desculpou o cozinheiro açoriano, mas como este tivesse repetido a ofensa, o P.A. já não esteve pelos ajustes e comunicou ao cabo o que se passara. O cabo Libânio, homem de Manique do Intendente, possante e bruto que nem uma carroça velha, tirou o cassetete da mão do seu subordinado, chegou-se ao pé do açoriano e nem lhe perguntou por que lado queria e quantas queria: marcou-lhe uma pancada ao centro da mona, que deixou o fulano em estado melindroso.
O ferido, depois de assistido na enfermaria da Base, foi parar ao Hospital Militar da Estrela, onde ficou uns tempos, de molho. Porém, como lhe tivessem dado alta prematuramente, este regressou à cozinha da Base, onde a chaga mal sarada, na sua cabeça exposta a fumos, regrediu no seu estado clínico e o obrigou a voltar para o Hospital da Estrela com uma valente infeção. Voltou à Base e ao seu posto de cozinheiro algum tempo mais tarde.
Como dia de apresentação, já não estava mal de todo. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cap. III - Escola de Cabos da P.A. - 1964

Cap. III - Escola de Cabos
Na Escola de Cabos, sob o comando do recém-promovido alferes Barroso, aprendemos mais um bocado de treino militar, como era óbvio. Desde o desmontar e montar armas, também ficámos a saber as propriedades de certas armas nucleares, com relevo para a bomba atómica. As defesas possíveis para minimizar os efeitos da explosão daquela, que acarreta o aparecimento de uma luz muito brilhante um calor muito intenso e as radiações nucleares iniciais, que se propagam, com exceção dos neutrões, a 300 000km/s. Os efeitos da energia libertada são o calor, o sopro e a radioatividade.
Também se abordaram temas relacionados com a guerra biológica e a guerra eletrónica.
A definição, utilização e diferenças entre abrigos e máscaras durante um tiroteio, eram outras matérias que também nos eram ministradas; topografia e orientação faziam ainda parte do curso.
Para que conste, a honestidade intelectual, ou a falta dela, tanto se manifesta na vida civil, como na militar. Isto, para referir que o esforço e dedicação de uns, não foram devidamente compensados, em termos classificativos, comparativamente a outros, que nada fizeram. Enquanto que os primeiros (onde me incluo) se esforçaram e levaram a sério esta fase, outros dedicavam-se à sonolência, batendo as sua belas sornas debaixo dos pinheiros, naquelas quentes tardes de verão. No fim, houve malta de outros pelotões que, não sabendo sequer o B-A-BA, acabaram por obter classificações muito superiores aos do nosso. Era a grande diferença entre o brio militar do alferes Barroso e outros comandantes de pelotão de “vão de escada”. Mas o “crime” compensou-os.

Próximo cap. IV - Na BA2 - Ota

terça-feira, 17 de março de 2015

Cap. II - Curso de Polícia Aérea - 1964

Cap. II - O Curso da Polícia Aérea
Acabada a recruta, e depois de dez dias de férias, que aproveitei para me recompor, lá voltei à Base para iniciar o curso de Polícia Aérea.
 Novamente na 1.ª Esquadrilha mas, agora, no 3.º pelotão, tinha como comandante o 1.º sargento-paraquedista Oliveira e dois cabos milicianos da P.A. de cujos nomes já não me recordo. A nossa arma de instrução era a pistola-metralhadora FBP, de fabrico nacional.
Foi uma instrução dura, com o nível de intensidade muito acima do que acontecera na recruta.
Era descer pinheiros, de cabeça para baixo, era boxe, era luta de combate, era o combate noturno e o chamado brutobol, em que valia tudo. Aconteceram algumas peripécias que, por serem anormais, trouxeram ânimo e risos às hostes, como uma do nosso comandante de pelotão, o 1.º sargento paraquedista, Oliveira. Um dia teve a infeliz ideia de desafiar um colega meu, o 69, de nome Emílio, para um combate de boxe. O Emílio, era de Coruche, mas desde muito pequeno que morava na Madragoa, em Lisboa. Este aceitou de imediato o repto e, num minuto, deu cabo do canastro ao sargento. Este, mesmo com a fronha toda amarrotada, fez questão de esclarecer o pelotão, que aquilo que o 69 tinha apresentado ali, não era boxe nem era nada. Em vez de um boxe técnico, o Emílio tinha usado um boxe matreiro, do género fadista, lá da Madragoa. Foi por isso, por ter utilizado uma linha de boxe malandro, de baixo nível, que deu mais do que levou.
Alguns dos meus contemporâneos no curso de Polícia Aérea eram tipos famosos, como o Fernando Tavares, um boxista internacional do Sporting e participante nos Jogos Olímpicos de Roma em 1964; o Carlos Vitorino, ciclista do Tavira e o Indalécio de Jesus, ciclista do Louletano. Nunca tive o azar de defrontar o Fernando Tavares, mas gostava de vê-lo a malhar nos outros; especialmente nos torneios de boxe que se realizavam nos Paraquedistas, contra atletas deste regimento e, também, de outros clubes, como o Benfica o Mouraria e o Cova da Piedade.
De resto, o que por ali apareceu era tudo gente vulgar. Era raro vislumbrar-se um daqueles foras-de-série atípicos, que deixam o pessoal encantado. Além do “sessenta e nove”, do Tavares e dos dois ciclistas, havia o Taça, um tipo de Coruche que residia na Marinha Grande e que só corria para o bife e, como tal, era sempre o último; o tal Cárie Dentária, que jorrava sebo dos braços; o Nunes, que jogava no Beira-Mar e os famosos (pela negativa) Jorginho e o Vítor, aquele de Lisboa e este da Marinha Grande. Ao que se dizia eles tendiam para a homossexualidade, mas nunca foram expulsos da tropa ao abrigo do art.º 16.º, pelo menos enquanto estiveram em Tancos. Depois, não sei. Perdi-lhes o rasto.
Era uma época de gente pobre, que nada tinha. De entre trezentos e sessenta recrutas apenas um tinha automóvel: era o Passanha, filho daqueles Passanhas de sangue azul, ganadeiros e latifundiários do Ribatejo. Esse era rapaz fino e, por isso, raramente pernoitava na base.
Certo dia, houve um levantamento de rancho que trouxe alguns problemas e muita porrada a alguns dos colegas que o engendraram e, tirando isso, nada mais de relevante aconteceu.
O curso de Polícia Aérea estava a chegar ao fim. Nos últimos dias, o comandante da Esquadrilha mandou que se organizassem uma provas especiais de aferição cuja finalidade era selecionar os quatro soldados de cada pelotão, com maiores aptidões para frequentarem o Curso da Escola de Cabos. Já tínhamos dado o cérebro e o corpo ao manifesto vezes que bastassem para que os comandantes de pelotão tirassem as suas conclusões acerca da pujança mental e física de cada um, mas, pelos visto, isso ainda não bastava. Foi então ordenado que se fizessem uns combates de boxe com a finalidade de aquilatar das forças ou fraquezas dos contendores. Os vencedores iriam frequentar a dita Escola de Cabos. Foi assim que eu, tal como os outros colegas vencedores, fomos selecionados e demos um passo em frente.
Pouco depois realizou-se a cerimónia da “Entrega das Boinas”. Foi uma festa engraçada. Com demonstrações de como conter e contra-atacar motins e outros tumultos. Em pleno terreiro, houve uma demonstração de boxe, tendo combatido o nosso colega e olímpico Fernando Tavares e um cabo-miliciano corajoso quanto baste, para apanhar uns valentes sopapos, sem direito a queixinhas.  
Numa certo dia de junho de 1964, recebemos ordens do comandante de pelotão para que, na manhã do dia seguinte, nos apresentássemos de barba bem escanhoada, PQ8[1] vincado e botas a brilhar. Segundo nos disseram, tratava-se de um exercício especial.
Foi assim que, naquela manhã, nos apresentámos na parada, prontos para o que, secretamente, nos tinha sido reservado. É verdade que, cá entre nós e entre dentes, íamos tecendo as mais variadas conjeturas acerca da insólita ordem mas, como ordens são para cumprir e não para serem discutidas… Cada um inventava ou tentava adivinhar o que dali iria sair, mas a maioria aventava a hipótese de se tratar de uns exercícios de preparação para o desfile e parada militar do 10 de junho, no Terreiro do Paço, em Lisboa.
O alferes Barroso mandou formar e, depois de cinco minutos de ordem unida, ordenou que o seguíssemos, em marcha acelerada, e foi neste ritmo que atravessámos o campo de futebol. Em seguida, descemos as vertentes da Base até junto da linha de água que passa a norte, mas agora já em passo de corrida moderada, uma espécie de trote, como diria o meu conterrâneo Zé Vieira.
Aqui, já muitos de nós desconfiávamos de algum truque que o mestiço do alferes estivesse a tramar. De cada vez que ele dava uma ordem, era sempre para agravar a situação, tanto assim que, depois de termos mudado o ritmo para galope, em vez de atravessarmos o riacho para o lado do pinhal, recebemos ordens expressas do alferes Barroso, para que o seguíssemos entrando na linha de água.
Quanto mais caminhávamos para a foz do riacho, maior era a parte do corpo que submergia. Como era Verão, aquilo não arrepiava tanto como se fosse na época da recruta, mas custava um bocado. Ainda não era tanto pelo facto de se estar dentro de água, vestido de lavado e calçado, mas pela qualidade da água do riacho que, à medida que íamos progredindo para jusante, ficava mais turva, deteriorada e expelia um cheiro nauseabundo.
Já estávamos a chegar perto da foz do pequeno curso hidráulico. Agora, com a imundice a flutuar perto do queixo de cada militar, também dava para ver que toda aquela torrente de chafurdice provinha das pocilgas e capoeiras da agrícola da unidade militar do Regimento de Engenharia de Tancos. Com o alferes sempre na frente, atingimos o ponto onde ele achava que devíamos estacionar.
Depois de nos ter convidado a gritar, meia dúzia de vezes, o estafado slogan A tropa é boa? É!, lá ordenou que se fizesse o percurso inverso, riacho acima, para montante, no fim do qual, todos e cada um teriam que fazer trinta completas[2]. Dizia ele que, antes de um grande desafio, nada como um mau ensaio.
A partir de agora, todos tomavam conhecimento oficial de que a ida a Lisboa, ao desfile do 10 de junho, seria mesmo uma realidade. A diferença, era a de que o atavio não seria o mesmo, iríamos mais brunidos, armados de metralhadora FBP e, por muito mal que o Tejo cheirasse, ali no Cais das Colunas, nunca seria de comparar ao esgoto da Agrícola de Tancos… enfim, fantochadas de tropa! E no dia de Portugal, lá fomos mesmo prestar vassalagem ao Presidente Tomás, ao 1.º ministro Salazar e mais à sua comitiva. Era o Dia do Pagamento aos heróis da Guerra do Ultramar. Aos vivos, porque aos mortos, que Deus lhes pagasse.

Próximo Capítulo: - Na Escola de Cabos da P.A.





[1] Fato de combate.
[2] Trinta flexões, trinta cangurus e trinta pulos de galo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Cap. I - Na Recruta - Força Aérea -1964

5º Pelotão - 1ª Esquadrilha
A 1ª Esquadrilha
Eu e a Mauser
                                                                           



- Na Base Aérea Nº3, em Tancos

Capítulo I - "A Recruta"
Como estava muito perto de fazer os vinte anos e não teria tempo de fazer o Curso Industrial antes de ir para a tropa, pensei que o melhor que tinha a fazer era ir mais cedo para a tropa. Pelo menos, adiantava a vida civil e, quando saísse, logo se via a maneira de continuar a estudar de noite. Assim fiz. Em novembro de 1963, preenchi os questionários de pedido de alistamento na Aeronáutica e em 4 de dezembro, depois da inspeção nas instalações da Força Aérea, no Monsanto, fui alistado como voluntário na Polícia Aérea. A incorporação, a título oficial, deu-se a 16 de janeiro de 1964, embora eu tenha recebido a guia de marcha para me apresentar na Base Aérea nº 3 de Tancos, em 14, dois dias antes.

Rapei o cabelo, arranjei o saco e pus-me à boleia para o Vale de Santarém, onde apanhei o comboio para um destino que devia ser Almourol, perto de Tancos. Todavia, houve um pormenor que alterou por completo todo o trajeto; é que, para desembarcar em Almourol, eu deveria ter descido no Entroncamento, deixando a linha do Norte e mudado para o comboio da linha da Beira Baixa. Em vez disso, passei o Entroncamento e, quando cheguei à Lamarosa vi que já tinha feito burrada. O que eu tinha em mente, por informações recolhidas era que, a seguir ao Entroncamento, a estação que me aparecia seria a da Barquinha e não a da Lamarosa. Dirigi-me ao chefe da estação a pedir informações e o que ele me aconselhou foi apanhar um táxi para a Base Aérea, até porque, voltando ao Entroncamento, já não dava tempo para apanhar o comboio da linha da Beira Baixa. E foi o que fiz: tomei o táxi e, pela inesperada viagem, paguei setenta escudos, que muita falta me fizeram naqueles dias em que estive na Base. A primeira nabice, em tempos de tropa, já estava feita.

No dia seguinte, num dos hangares da Base, formou-se uma enorme fila de umas centenas de mancebos e esperei pela minha vez. Depois, recebi o nº 137, fui colocado na 1.ª Esquadrilha e passei a pertencer ao 5.º pelotão. Tal como eu, perfilava-se um grande grupo outros mancebos, cada qual lendo, em silêncio, o que ia na mona. Havia uns que, por isto ou por aquilo, se destacavam dos outros, como, por exemplo o Emílio. Era nascido na vila ribatejana da Golegã, mas aos seus 7 anos passaram-no para Lisboa, mais propriamente para o bairro da Mouraria. O mangas não parava sossegado. Graçola para aqui, piada para acolá, o Emílio dava nas vistas. Nem com o raspanete do sargento que orientava a distribuição do fardamento, o tipo se acalmou. Mal se aproximou da mesa, foi-lhe ordenado que se retirasse da fila e permanecesse de lado até ser chamado. Quando o sargento achou o momento era propício, chamou pelo Emílio e ordenou ao cabo de serviço:
- "Nosso cabo, este mancebo vai ser registado com o nº 69!"
 E foi assim que, durante toda a recruta, toda a gente na Base sabia quem era o 69, passando a sua alcunha para Emílio.

Esta Base Aérea, como todas as Bases, situava-se longe da civilização. Era um ermo rural de onde apenas se destacava a zona que confinava o chamado Polígono Militar de Tancos, onde se inseriam as unidades da Base Aérea Nº3, Regimento de Paraquedistas e Escola Prática de Engenharia.
O comandante da BA3 era o coronel piloto-aviador A.J. Rosa Rodrigues. As aeronaves que pertenciam a esta Base eram os Junkers Ju52 – os chamados JU – de fabrico alemão, que eram utilizados no transporte de tropas e no lançamento de paraquedistas. Havia, ainda, os helicópteros tipo Allouette que, além de outras funcionalidades, também eram utilizados no lançamento de paraquedistas.
Na recruta, o comandante da 1ª Esquadrilha, que era composta por 180 rapazolas, era o alferes-paraquedista Matos. Os monitores que me calharam na rifa foram: o aspirante Lapa, de Sernancelhe; o soldado da Polícia Aérea, José João, do Porto, e o cabo miliciano Bento, de Famalicão. Faziam parte do meu pelotão uns 30 indivíduos, oriundos das mais variadas zonas do país. Gente de Trás-os-Montes, Minho, Beira Alta, Douro Litoral, Beira Litoral e Alto Alentejo. Ribatejano era só eu.
No fim-de-semana de 18 e 19 de janeiro, fiquei na Base, em virtude de não haver dispensa de saída para os novos recrutas. Como não tinha ninguém conhecido naquela esquadrilha, andei com uns tipos do meu pelotão, a saber: o José Maria Capitão, de Leça da Palmeira, o Zé Moura, de Paços de Ferreira e o Leonel, da vila da Lixa, que, a pé, fomos conhecer os arredores, que nada tinham para ver. Passámos pelas Limeiras, Roda Grande, Roda Pequena, onde conhecemos a menina Adozinda, uma carinha laroca, filha da taberneira. Depois, andámos pela Aringa, em frente ao Quartel de Engenharia e, aqui, numa tasca cheia de soldados, fizemos um jogo de matraquilhos, vimos que havia ali um cinema, que pertencia à Engenharia, e tinha acabado a folga. Era tempo de regressar à Base.

No fim-de-semana seguinte, a rapaziada estava ávida de dar um salto até casa para, quanto mais não fosse, mostrar a farda e trazer umas lecas no bolso, se fosse caso disso. Só que, mesmo sem termos qualquer espingarda, nos saiu o tiro pela culatra. Antes do ato do recebimento do salvo-conduto que nos garantia a livre ida à terra, o oficial de dia mandou formar os recrutas nas camaratas, por pelotões e em alas, cada qual junto da sua cama, para serem submetidos à inspeção no que concerne à limpeza do conjunto e ao atavio de cada militar.
Tudo em sentido. Eis que entra o alferes Matos. E, pelo que disse, ninguém sairia da Base nesse fim-de-semana. Segundo o seu ponto de vista, as coisas estavam assim:
— Sim, senhores recrutas! Esta camarata não está suja! Esta camarata está porca! — e prosseguindo:
— Em vossas casas também convivem com a espécie de lixarada que estamos aqui a constatar? E as camas? Quem é que vos disse que os cobertores eram auto-esticantes? E a dobra dos lençóis, é assim como esta, por exemplo? Além do mais, há para aí algumas botas muito enevoadas! E este peitoril de janela, não é para estar limpo a tempo e horas da inspeção?
O ambiente era de terror. Creio que todos tremiam que nem varas verdes, já a adivinhar o que é que ia sair dali. Então, para não iludir as expetativas, o alferes disse:
Este fim-de-semana ninguém sai da Base! Pode ser que, assim, haja tempo para fazer a limpeza condignamente!
E, sem dizer adeus, saiu porta fora.

Agora, à distância de cinquenta anos, não posso afiançar que todos os recrutas tenham ficado na Base, mas eu não fiquei.
Se a minha namorada fazia dezoito anos no dia seguinte, sábado, como é que eu podia ficar preso na Base se, ainda por cima, não tinha a consciência pesada por qualquer cometimento grave que pudesse pôr em causa a instituição militar? E, vai daí, combinei um esquema com um colega e pus-me ao fresco. Ele só tinha de responder pronto, por mim, nas chamadas nas formaturas para o refeitório. Como os sargentos de dia ou os oficiais não nos conheciam, era fácil. E, por acaso, não houve mesmo qualquer problema: tudo correu como planeado.
Havia umas cenas e uns cromos muito razoáveis naquela Esquadrilha, além do já famoso 69. No meu pelotão, que ia do nº121 ao 150, destacavam-se o Zezinha, que era de Resende, o Vítor Mimoso, da Marinha Grande e o Teixeira, por alcunha o Cárie Dentária que era de Quadrazais, concelho do Sabugal, ali mesmo no sopé da serra da Malcata. Este último que, em condições normais, nunca tomava banho, passou a tomá-lo à força. Das primeiras vezes, começou por ser enviado para o chuveiro vestido e calçado, depois, com o tempo, foi-se ambientando e, já muito perto do fim da recruta, já conseguia tomar duche despido e sozinho. Estávamos em janeiro e a zona de Tancos era bastante fria; seria por isso que ele não se lavava? Mas se ele até era oriundo da mais fria zona do país…
Logo na primeira vez que, na instrução, me calhou este fulano, como parceiro, para fazer luta de corpo a corpo, eu reparei, que aquilo que alguns colegas tinham dito dele era bem verdade: os seus braços escorregavam como se estivessem ensebados. Logo na primeira vez que o agarrei constatei isso. Então, achei por bem avisar o tipo de que deveria queixar-se ao aspirante, que estaria a sofrer de uma qualquer dor ou maleita que o impediam de fazer aquele tipo de exercícios. Mas ele é que não foi na conversa e a sessão continuava. Passei à fase da ameaça, dizendo-lhe:
Ó pá! Ou tu dizes ao aspirante que te dói o corpo e sais já daqui para fora, ou então vou eu dar-te uma ensinadela. Seu grande porco!
E assim foi. Na ação de ataque e projeção à retaguarda, atirei com o Cárie Dentária de tal forma, que acabou no chão, meio empenado, a contorcer-se com dores. Mas, se eu já o tinha avisado, porque não parou ele? É que, ainda hoje, quando me lembro disto, ainda que passados todos estes anos, me parece que estou a sentir nas mãos aqueles braços esbranquiçados e pegajosos, envoltos numa camada gordurosa que mais pareciam estar besuntados de óleo ou sebo. Não sei qual era a ocupação daquele indivíduo antes de ter ido para a tropa, mas que ele não trabalhava nem andava ao sol, disso tenho a certeza. Era branco como a cal virgem. Ele daria um bom anunciante para um qualquer detergente do tipo Tide ou Omo que, na época, andavam a competir no mercado.
Nesta recruta havia de tudo: aqueles que, quando recebiam uma ordem para volver à esquerda, viravam à direita, e era preciso colocar-lhes uma pedra na mão, que funcionaria como bússola; havia aqueles que andavam à procura das estrias da espingarda que, segundo o monitor, aquele o recruta tinha perdido… enfim, umas peripécias humorísticas que ajudavam à galhofa e à boa disposição.

Ainda no decorrer da recruta, que durou até março, fui internado na enfermaria da Base com parotidite epidémica, vulgo papeira. Estive isolado dez dias, a ter umas bolachas e leite como alimentação e a levar a cara e o pescoço barrados com uma massa castanha, a que chamavam bálsamo de peru. Finda a clausura, saí bastante debilitado e regressei ao meu pelotão para fazer parte das afinações para o juramento de bandeira. Foi por uma diferença de dois dias que não perdi a recruta. No acto do juramento de bandeira, mal pude suster a arma, por falta de forças. Não estava calor, mas eu transpirava por todos os poros. Mas, com todo aquele sacrifício, lá cumpri aquela etapa.
Antes, porém, e por sugestão do meu comandante de pelotão, aspirante Lapa, ainda fui submetido a um casting para vocalista do conjunto da Base, o “Luva Negra”. Este grupo musical já existia há dois meses; tinha como timoneiro o alferes miliciano da Polícia Aérea, Carvalho Fernandes, que tocava órgão, o seu baterista era o portuense Alexandre Meireles (meu colega de pelotão) e, como vocalista, tinha o Vítorino, o “Setúbal”. Verifiquei, algum tempo depois, que, salvo melhor opinião, o “Setúbal” não era melhor vocalista que eu, mas como já lá estava desde o início da recruta, há dois meses, já tinha uma certa vantagem. Isto porque, no ato da incorporação, o Vitorino tinha dado como um dos seus hobbies, o de ser vocalista. Como ninguém mais tinha declarado tal atributo, bom ou mau, ficou ele.
O meu aspirante, o Lapa, assim como os meus colegas de pelotão da recruta, já me tinham ouvido cantar algumas vezes, a pedido dos mesmos. Tudo começou, quando, numa pausa entre duas fases de exercícios, cantei uma ou duas cantigas que, na época estavam em voga. Lembro-me de “Piove” e de “Come Prima”, duas italianas que serviram para desbravar caminho para umas outras que me eram pedidas e eu, cheio de peneiras, cantava. Cantava e animava a contento, pelos vistos, porque as solicitações eram tantas, quantos os intervalos que tínhamos entre disciplinas. E foi num desses períodos de descanso, que passou por nós o alferes do órgão, o Carvalho Fernandes, que foi interpelado pelo Lapa, no sentido de o desafiar a conceder-me uma audição num dos ensaios do conjunto. Aquele alegou que de vocalista já estava servido, mas já que o colega Lapa insistia na ideia, sempre me concederia a audição. E marcou-me data e hora para que me apresentasse na sala de ensaios, a fim de mostrar as minhas aptidões vocais.
Lembro-me de que o ensaio ia ter início às 20h00, mas eu, dez minutos antes já lá estava. Estava eu, e em cima da hora, lá chegaram os outros três. Foi então que o chefe da orquestra me perguntou o que é que eu queria cantar, ao que eu respondi:
― Posso começar com “Perfídia” do Nat King Cole, se puder ser.
E tanto pôde, que foi isso mesmo que interpretei. Não sei o Carvalho Fernandes gostou muito ou pouco, porque ele apenas me perguntou qual era a seguir. E a seguir, sem interrupções, vieram o “Camino de Sahara”, de Los Tamara; “Y Watusi”, de Edoardo Vianello e, para rematar, o “Tchin tchin a la santé”, de Richard Anthony. E digo para rematar, porque, após a quarta interpretação, o alferes achou que aquilo que ouvira já seria suficiente para - julgo eu - concluir que não estava na presença de nenhum fora de série e que, para aquilo que o “Luva Negra” precisava, já ele lá tinha.
Entretanto, durante todo o tempo em que fui atuando, o Vitorino olhava-me com o olho esquerdo, como que a fazer figas, de modo a que eu não ocupasse o seu lugar. E, findo o teste, não fiquei no lugar de ninguém, já que o alferes se levantou do banquinho do órgão, deu-me os parabéns, dizendo que gostou imenso, mas dizendo ao mesmo tempo que, como eu compreenderia, não podia expulsar o “Setúbal” do grupo para me dar o lugar a mim. Então, o que preconizava, desde que eu não me importasse, era ficar como suplente e, assim, num qualquer imprevisto ou impossibilidade do Vitorino, seria a minha vez de atuar. Perante tal deliberação, eu não aceitei a alternativa e, embora de modo civilizado, disse-lhe que tudo bem, mas não contasse comigo em tais condições. E fui-me embora. Mas se aquele casting fosse feito cá fora, na vida civil, eu teria dito ao organista que ele até podia perceber muito de teclados, mas de vocalistas é que ele não percebia nada. Como é que o “Setúbal”, uma voz de cana rachada, podia ser a voz do “Luva Negra”, em meu detrimento? O estar lá há algum tempo, antes de eu ter chegado, também contava? Eu achava que não... Mas, em ambiente de tropa, não pude refilar.
Como era de esperar, no dia seguinte todos quiseram saber como tinha corrido o casting da véspera. E foi com mágoa que a malta, incluindo o aspirante Lapa, ficou a saber do resultado, do mau resultado. Alguns deles, dos que já tinham ouvido a voz do “Setúbal”, juraram ali, a pés juntos, que eu era muito melhor vocalista que ele, mas quem podia, decidiu assim...  
Dois dias volvidos e novo encontro do meu pelotão com o Carvalho Fernandes. Foi então que o meu aspirante, o Lapa, desancou o colega, dizendo-lhe, inclusivamente, que o casting estava viciado à partida. O outro esboçou um sorriso amarelo, por debaixo da boina azul, e disse:
Ó Lapa, o teu recruta até é um bom vocalista e, além disso, tem na bagagem canções de top, mas ele recusa-se a jogar a suplente… e tu achavas bem que eu despedisse o “Setúbal”, que já está comigo há dois meses, para lhe dar lugar ao Zé Luís? Era chato, não achas?
E, voltando-se para mim, disse:
Olha que eu fico a contar contigo, para o caso de haver algum percalço, ouviste?
Eu encolhi os ombros, como que a dizer: “Vai-te lixar!” Ele deu meia volta e desandou dali. Por agora, estava encerrado o capítulo musical, a par da recruta.

Próximo capítulo: II - na Polícia Aérea.