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| Defesa de punhalada alta |
Cap. VI – Monitor de uma recruta de Soldados-Alunos (especialistas). Em janeiro de 1965 fui nomeado para fazer parte de uma equipa de comando e monitorização da primeira recruta do ano para soldados-alunos. Eram estes que, mais tarde, fariam parte das Escolas de 1.ºs Cabos Especialistas da Força Aérea, cuja formação era sempre feita na B.A. 2, na Ota.
Vinham mancebos de todos os lados:
Continente, Ilhas, Angola, Guiné, Moçambique… e até do Cartaxo vieram recrutas.
Lembro-me do Domingos Jarego, do Carlos Marecos, do Ludgero, do Veríssimo, do
Chico Maluco, de Pontével, e do
Avelar Marques. Este último foi o que calhou na minha secção. Durante os dois
meses e meio de recruta, fui eu quem teve que o aturar. Ele tinha tanto de bom
rapaz, como de sorna. Não raras vezes, era eu quem alombava com a sua espingarda no decorrer de um qualquer crosse. Quando ele, a certa altura, já
deitava a língua de fora, pelo cansaço, e sofria na cauda do pelotão, eu pegava
na arma e, com esta em bandoleira, voltava à cabeça do grupo e ao comando
deste. Eu, para o espevitar, perguntava-lhe se ele era aquele rapaz que eu
conhecera uns meses antes a jogar na equipa de juniores do S.L. e Cartaxo. Mas,
essas palavras, em vez de o acicatar, ainda o relaxavam mais. Era quase sempre
o último a chegar. Bem, alguém tinha de ser o último…
Também o César Pires, de Lisboa, mas com raízes em Vale da Pinta, entrou nessa recruta. Havia ainda uns rapazes de Vila Franca de Xira, que faziam parte deste meu pelotão (na F.A.P. chamava-se secção). Eram eles, o "Mestiço", o Belfo e o José Júlio Ceitil. Este, que foi jogador de futebol na União Vilafranquense, foi, também, comissário de bordo da TAP e escritor, já com 2 ou 3 Volumes publicados.
Ele
era gente das mais variadas cores e condições sociais, já que em termos de
habilitações literárias, eles tinham entre o 1.º ciclo dos liceus completo (1.º,
2.º e 3.º anos) e o 2.º ciclo (4.º e 5.º anos). Havia até os que tinham os liceais 6º
ano ou mesmo com o 7º incompleto, mas isso não acrescentava nada para os fins
em vista. Só os indivíduos que tivessem o 3.º ciclo completo podiam candidatar-se
às Escolas de Cadetes.
Com
um alferes miliciano, que de tropa nada percebia, e um outro 1.º cabo da
Polícia Aérea, de nome Adelino, de Matosinhos, lá se deu início às operações. O
pelotão, ou secção – como se dizia na F.A. – era o 5.º da 1.ª Esquadrilha.
Julgo que eram quarenta, os rapazolas que compunham o ramalhete. Mesmo não tendo pessoal de todos os quadrantes, havia
uma grande mescla de gente. Além dos continentais, havia dois açorianos, um são
tomense, três moçambicanos e quatro angolanos. Mais um, menos um, era assim a
composição do grupo.
O
alferes que, em teoria, devia ser o comandante de secção, na prática não o era, de todo. Andava a estudar alemão e, talvez por isso, desenfiava-se com alguma frequência. Mas era preferível assim: já
que ele, de tropa, nada percebia, então era mais proveitosa a instrução com a
sua ausência do que andar por ali a fingir que, como era o comandante de
secção, sabia alguma coisa do ofício.
Eu
e o Adelino tomámos conta do grupo e aquilo é que foi progredir, dia após dia.
Fosse na Ordem Unida, na Preparação Física, Crosses Militares, Armamento, Luta,
Combate ou Topografia, o que nós queríamos era que estes voluntários,
rapazinhos com dezassete e dezoito anos, a maioria com aspeto de copinhos de leite, se transformassem num
valoroso grupo de bravos militares, que mostrassem às outras onze Secções das
duas Esquadrilhas, que a 5.ª era mesmo a melhor de todas elas.
Ao
cabo de duas semanas, quando passávamos, a marchar, na periferia da Parada, era
ver aquela malta a olhar-nos, com um misto de admiração e de inveja pelo garbo
que patenteávamos sobre o asfalto.
Mas
isso era apenas bazófia para encher o olho à concorrência, porque, para quem conhece
bem estas coisas da tropa, sabe que, de um momento para o outro, tudo se pode
transformar. Sabia bem treinar na quadratura da Parada da Base, tal como sabia
bem caminhar e deslizar pelas artérias asfaltadas dentro da Base, mas isso era
coisa de gente fraca. Que eu soubesse, o que andávamos ali a formar eram
guerreiros, militares com resistência e bravura, porque a verdade é que, à
época, o país estava em guerra. Depois da recruta e após a especialidade,
qualquer um deles poderia ser mobilizado para África e aí as coisas eram mais a
sério. E foi com esta convicção que me dirigi ao alferes, fazendo-lhe ver que a
tropa não era para virgens prendadas. Ele, que gostava era de sossego, mandatou-me
para que eu procedesse como achasse melhor. Então, o que eu entendi, no
significado das suas palavras, é que o que fosse bom para nós instrutores seria
igualmente bom para a Base, para a Força Aérea e até para a Nação. Se acaso o
esquema engendrado fosse pior, a curto prazo, para os instruendos, esse não
seria nunca um fator a ter em conta. Se eles eram voluntários, que se lixassem.
A mim, que também fui voluntário, fizeram-me mil e uma tropelias e não foi por
isso que não sobrevivi. E foi dada a ordem
de partida.
O
inverno era bastante frio. De cada vez que se faziam crosses ou combates, fora
da Base, só ao fim de alguns quilómetros é que tínhamos o corpo moderadamente
quente. Mas havia uma outra maneira de fazer aquecer a musculatura e que eu já
treinara uns meses antes, em Tancos. Então, ordenava aos recrutas para que subissem
uns pinheiros, sendo que a sua descida teria que ser feita de cabeça para
baixo. Não era nada de transcendente, este exercício, mas com as barrigas dos
recrutas a roçar pelas cascas do pinheiro abaixo, o incómodo era evidente.
Depois,
prosseguindo a marcha dentro do itinerário traçado, havia que atravessar o
caudal da ribeira da Ota. A manobra consistia em avançar ribeira adentro, até
meio e, depois, rodar 90º à direita, caminhando mais uns trinta metros; e com
nova viragem à esquerda, atacar o resto da travessia até à outra margem. O
caudal da ribeira era volumoso, isto porque tinha chovido quase
ininterruptamente nas últimas duas semanas. Não era caso de vida ou de morte; o
único óbice que eu via naquilo, era o facto de estarmos em pleno mês de em
janeiro e a temperatura ser baixa, muito baixa. A água estava pouco menos que
gelada, mas que diabo… e se fosse num cenário de guerra? Não teríamos nós que
meter os pés a caminho?
Os
mais refilões, os comodistas e os adoutourados
é que não se conformavam com aquelas exigências militares, pois que,
segundo eles, não lhes deviam ser ministradas tais perfomances. Diziam eles:
—
Ó nosso cabo, nós vamos ser especialistas e não paraquedistas, nem polícia
aérea! A nossa zona de atividade militar, resumir-se-á ao interior de uma qualquer Base e não num teatro de
guerra, como vocês.
Então
eu, manifestando desacordo com os argumentos dos copinhos de leite,
retorqui com a seguinte tese:
—
Ah é?! E quem é que vos garantiu, meus meninos, que, na guerra de África, e no
caso de a vossa Base ser atacada, existe um escudo invisível que vos vai
proteger o coiro? Quem é que de vocês
vai obter salvo-conduto para se safar incólume e ficar imune aos tiros dos
terroristas? E quem é que vos afiançou que os senhores especialistas não terão
que pegar em armas, refugiarem-se atrás de um pardieiro, meterem-se numa mata
ou ter mesmo que dar à sola dali para
fora, enquanto for tempo?
Eles
escutavam-me de boca aberta e sem vontade de ripostar. Mas eu não me fiquei por
ali e disse mais:
—
E fiquem vocês sabendo, que as diretivas que regem o programa da recruta, não
especificam o grau de dificuldade das disciplinas que compõem a instrução. Como
se tudo isto não bastasse, ainda há que ter em conta que eu, tal como aqui o
meu colega, o 1.ºcabo Adelino, também fizemos uma recruta, e as entidades superiores
que nos destacaram para monitores desta incorporação, estavam cientes disso.
Quero dizer, que será dentro do programa previamente estabelecido, a par dos
nossos conhecimentos outrora adquiridos, que a vossa recruta será ministrada.
Alguém precisa de mais esclarecimentos? Se não, vamos prosseguir com os nossos
compromissos.
Como
reação, muitos dos rapazes, aqueles que se sentiam física e mentalmente aptos,
gritaram alto:
—
Sim, senhores! É claro que somos capazes de superar as dificuldades que se nos
depararem. A tropa não é para meninos da
comunhão. Se os nossos monitores, e demais instrutores, foram capazes, porque
é que não o somos nós?
E
todo o pelotão aplaudiu com palmas, em coro.
Eu,
aproveitando a maré favorável, concluí assim:
—
E fiquem vocês sabendo, que a nossa secção terá que ser a melhor dentro desta
recruta. Seja na Ordem Unida, Luta, Preparação Física, Armamento, Topografia e outras,
vamos, seguramente, ser os melhores.
A
partir de então, creio que todos deram o seu melhor. Pese embora a continuidade
de alguns atrasados nos crosses e eu
ter de carregar com a espingarda do Avelar, e não só, todos se aplicaram a
contento. Tanto assim, que no dia de juramento de bandeira, a 5.ª secção foi
distinguida como a melhor de entre as doze. Materialmente não se ganhou nada
com a distinção, mas em termos de brio militar, foi muito gratificante essa
nomeação.
Continua no Cap.º VII
Continua no Cap.º VII

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