domingo, 12 de abril de 2015

Capº. VI - Um P.A. monitor de Recrutas "Especialistas".


Defesa de punhalada alta

Cap. VI – Monitor de uma recruta de Soldados-Alunos (especialistas). Em janeiro de 1965 fui nomeado para fazer parte de uma equipa de comando e monitorização da primeira recruta do ano para soldados-alunos. Eram estes que, mais tarde, fariam parte das Escolas de 1.ºs Cabos Especialistas da Força Aérea, cuja formação era sempre feita na B.A. 2, na Ota.
Vinham mancebos de todos os lados: Continente, Ilhas, Angola, Guiné, Moçambique… e até do Cartaxo vieram recrutas. Lembro-me do Domingos Jarego, do Carlos Marecos, do Ludgero, do Veríssimo, do Chico Maluco, de Pontével, e do Avelar Marques. Este último foi o que calhou na minha secção. Durante os dois meses e meio de recruta, fui eu quem teve que o aturar. Ele tinha tanto de bom rapaz, como de sorna. Não raras vezes, era eu quem alombava com a sua espingarda no decorrer de um qualquer crosse. Quando ele, a certa altura, já deitava a língua de fora, pelo cansaço, e sofria na cauda do pelotão, eu pegava na arma e, com esta em bandoleira, voltava à cabeça do grupo e ao comando deste. Eu, para o espevitar, perguntava-lhe se ele era aquele rapaz que eu conhecera uns meses antes a jogar na equipa de juniores do S.L. e Cartaxo. Mas, essas palavras, em vez de o acicatar, ainda o relaxavam mais. Era quase sempre o último a chegar. Bem, alguém tinha de ser o último…
Também o César Pires, de Lisboa, mas com raízes em Vale da Pinta, entrou nessa recruta. Havia ainda uns rapazes de Vila Franca de Xira, que faziam parte deste meu pelotão (na F.A.P. chamava-se secção). Eram eles, o "Mestiço", o Belfo e o José Júlio Ceitil. Este, que foi jogador de futebol na União Vilafranquense, foi, também, comissário de bordo da TAP e escritor, já com 2 ou 3 Volumes publicados. 

Ele era gente das mais variadas cores e condições sociais, já que em termos de habilitações literárias, eles tinham entre o 1.º ciclo dos liceus completo (1.º, 2.º e 3.º anos) e o 2.º ciclo (4.º e 5.º anos). Havia até os que tinham os liceais 6º ano ou mesmo com o 7º incompleto, mas isso não acrescentava nada para os fins em vista. Só os indivíduos que tivessem o 3.º ciclo completo podiam candidatar-se às Escolas de Cadetes.
Com um alferes miliciano, que de tropa nada percebia, e um outro 1.º cabo da Polícia Aérea, de nome Adelino, de Matosinhos, lá se deu início às operações. O pelotão, ou secção – como se dizia na F.A. – era o 5.º da 1.ª Esquadrilha. Julgo que eram quarenta, os rapazolas que compunham o ramalhete. Mesmo não tendo pessoal de todos os quadrantes, havia uma grande mescla de gente. Além dos continentais, havia dois açorianos, um são tomense, três moçambicanos e quatro angolanos. Mais um, menos um, era assim a composição do grupo.
O alferes que, em teoria, devia  ser o comandante de secção, na prática não o era, de todo. Andava a estudar alemão e, talvez por isso, desenfiava-se com alguma frequência. Mas era preferível assim: já que ele, de tropa, nada percebia, então era mais proveitosa a instrução com a sua ausência do que andar por ali a fingir que, como era o comandante de secção, sabia alguma coisa do ofício.
Eu e o Adelino tomámos conta do grupo e aquilo é que foi progredir, dia após dia. Fosse na Ordem Unida, na Preparação Física, Crosses Militares, Armamento, Luta, Combate ou Topografia, o que nós queríamos era que estes voluntários, rapazinhos com dezassete e dezoito anos, a maioria com aspeto de copinhos de leite, se transformassem num valoroso grupo de bravos militares, que mostrassem às outras onze Secções das duas Esquadrilhas, que a 5.ª era mesmo a melhor de todas elas.
Ao cabo de duas semanas, quando passávamos, a marchar, na periferia da Parada, era ver aquela malta a olhar-nos, com um misto de admiração e de inveja pelo garbo que patenteávamos sobre o asfalto. 
Mas isso era apenas bazófia para encher o olho à concorrência, porque, para quem conhece bem estas coisas da tropa, sabe que, de um momento para o outro, tudo se pode transformar. Sabia bem treinar na quadratura da Parada da Base, tal como sabia bem caminhar e deslizar pelas artérias asfaltadas dentro da Base, mas isso era coisa de gente fraca. Que eu soubesse, o que andávamos ali a formar eram guerreiros, militares com resistência e bravura, porque a verdade é que, à época, o país estava em guerra. Depois da recruta e após a especialidade, qualquer um deles poderia ser mobilizado para África e aí as coisas eram mais a sério. E foi com esta convicção que me dirigi ao alferes, fazendo-lhe ver que a tropa não era para virgens prendadas. Ele, que gostava era de sossego, mandatou-me para que eu procedesse como achasse melhor. Então, o que eu entendi, no significado das suas palavras, é que o que fosse bom para nós instrutores seria igualmente bom para a Base, para a Força Aérea e até para a Nação. Se acaso o esquema engendrado fosse pior, a curto prazo, para os instruendos, esse não seria nunca um fator a ter em conta. Se eles eram voluntários, que se lixassem. A mim, que também fui voluntário, fizeram-me mil e uma tropelias e não foi por isso que não sobrevivi. E foi dada a ordem de partida.
O inverno era bastante frio. De cada vez que se faziam crosses ou combates, fora da Base, só ao fim de alguns quilómetros é que tínhamos o corpo moderadamente quente. Mas havia uma outra maneira de fazer aquecer a musculatura e que eu já treinara uns meses antes, em Tancos. Então, ordenava aos recrutas para que subissem uns pinheiros, sendo que a sua descida teria que ser feita de cabeça para baixo. Não era nada de transcendente, este exercício, mas com as barrigas dos recrutas a roçar pelas cascas do pinheiro abaixo, o incómodo era evidente.
Depois, prosseguindo a marcha dentro do itinerário traçado, havia que atravessar o caudal da ribeira da Ota. A manobra consistia em avançar ribeira adentro, até meio e, depois, rodar 90º à direita, caminhando mais uns trinta metros; e com nova viragem à esquerda, atacar o resto da travessia até à outra margem. O caudal da ribeira era volumoso, isto porque tinha chovido quase ininterruptamente nas últimas duas semanas. Não era caso de vida ou de morte; o único óbice que eu via naquilo, era o facto de estarmos em pleno mês de em janeiro e a temperatura ser baixa, muito baixa. A água estava pouco menos que gelada, mas que diabo… e se fosse num cenário de guerra? Não teríamos nós que meter os pés a caminho?
Os mais refilões, os comodistas e os adoutourados é que não se conformavam com aquelas exigências militares, pois que, segundo eles, não lhes deviam ser ministradas tais perfomances. Diziam eles:
— Ó nosso cabo, nós vamos ser especialistas e não paraquedistas, nem polícia aérea! A nossa zona de atividade militar, resumir-se-á ao interior  de uma qualquer Base e não num teatro de guerra, como vocês.
Então eu, manifestando desacordo com os argumentos dos copinhos de leite, retorqui com a seguinte tese:
— Ah é?! E quem é que vos garantiu, meus meninos, que, na guerra de África, e no caso de a vossa Base ser atacada, existe um escudo invisível que vos vai proteger o coiro? Quem é que de vocês vai obter salvo-conduto para se safar incólume e ficar imune aos tiros dos terroristas? E quem é que vos afiançou que os senhores especialistas não terão que pegar em armas, refugiarem-se atrás de um pardieiro, meterem-se numa mata ou ter mesmo que dar à sola dali para fora, enquanto for tempo?
Eles escutavam-me de boca aberta e sem vontade de ripostar. Mas eu não me fiquei por ali e disse mais:
— E fiquem vocês sabendo, que as diretivas que regem o programa da recruta, não especificam o grau de dificuldade das disciplinas que compõem a instrução. Como se tudo isto não bastasse, ainda há que ter em conta que eu, tal como aqui o meu colega, o 1.ºcabo Adelino, também fizemos uma recruta, e as entidades superiores que nos destacaram para monitores desta incorporação, estavam cientes disso. Quero dizer, que será dentro do programa previamente estabelecido, a par dos nossos conhecimentos outrora adquiridos, que a vossa recruta será ministrada. Alguém precisa de mais esclarecimentos? Se não, vamos prosseguir com os nossos compromissos.
Como reação, muitos dos rapazes, aqueles que se sentiam física e mentalmente aptos, gritaram alto:
— Sim, senhores! É claro que somos capazes de superar as dificuldades que se nos depararem. A tropa não é para meninos da comunhão. Se os nossos monitores, e demais instrutores, foram capazes, porque é que não o somos nós?
E todo o pelotão aplaudiu com palmas, em coro.
Eu, aproveitando a maré favorável, concluí assim:
— E fiquem vocês sabendo, que a nossa secção terá que ser a melhor dentro desta recruta. Seja na Ordem Unida, Luta, Preparação Física, Armamento, Topografia e outras, vamos, seguramente, ser os melhores.

A partir de então, creio que todos deram o seu melhor. Pese embora a continuidade de alguns atrasados nos crosses e eu ter de carregar com a espingarda do Avelar, e não só, todos se aplicaram a contento. Tanto assim, que no dia de juramento de bandeira, a 5.ª secção foi distinguida como a melhor de entre as doze. Materialmente não se ganhou nada com a distinção, mas em termos de brio militar, foi muito gratificante essa nomeação.

Continua no Cap.º VII